quinta-feira, 2 de setembro de 2004

Eternidade

Lembro-me dos candeeiros da Nazaré. Aquela luz fosca laranja colada à parede das casas. A luz pálida que entrava nas janelas, protegidas apenas por um cortinado de flores de um tecido barato. Cortinados de flores com anos, testemunhas de dias prazerosos de praia. Os candeeiros de luz laranja das ruas da Nazaré. Aquelas ruas pequenas com calçada de pedras irregulares, polidas pelos passos das varinas. Calçada que fede a peixe e dejectos caninos. Espinhas abandonadas, dispersas nos intervalos das pedras. Pequenas travessas que unem as ruas compridas que vão dar à praia. Areia e mar. Cheiro a peixe que seca nos passeios da praia. Marginal que fede a peixe aberto ao meio que seca ao sol. Sorvetes de cones cobertos da fuligem do escape dos carros. Sorvetes de morango e baunilha. Chocolate e baunilha. Sorvetes que derretem no longo caminho até à barraca. Barracas de pano cru. Às riscas. Liso. Que fecham à hora do almoço, guardando segredos e pertences. Uma muda de roupa. Um beijo escondido. Urina e fezes de crianças enterradas na areia. Castelos que não levamos para casa. Que as ondas levam. Que um cão pisa. Que um humano destrói na tentativa de imortalidade. A Nazaré. Infância tornada eternidade.

1 comentário:

Rita disse...

Que todas as tuas recordações sejam assim.. nitidas e boniras :)

beijinho